quarta-feira, abril 04, 2018

Perdoar é preciso II?


No meu primeiro texto eu lhe convidei a espiar o seu coração, e fui também instigada pelo desafio que fiz. 
Li artigos e textos interessantes, os quais deixarei citados nas referências para que você leia, caso queira, entretanto, decidi falar hoje, o que pulsa em meu coração sobre este tema. 
Olhando para a minha trajetória, me estremeci ao perceber que perdoar nunca foi uma tarefa fácil para mim, embora boa parte da minha vida sempre acreditei não ter dificuldade.
Aos 46 anos, vejo que perdoar só pareceu fácil, quando pessoas que me magoaram em determinados momentos da minha vida, atingiram apenas superficialmente minha alma, fazendo leves arranhões, que uma boa conversa e pouco tempo foram capazes de curar.
Entretanto, houve momentos que pessoas me dilaceraram...  e algumas delas quando a alma já estava dolorida... E estas pessoas me revelaram o que de mim eu não sabia, não é mesmo fácil perdoar quando somos atingidos de maneira mais profunda. 
Fiquei pensando também nas pessoas que sei ter machucado na trilha da vida... Senti uma imensa dificuldade em me colocar no lugar delas, porque ao conversar comigo mesma, sempre encontro uma razão para ter feito o que fiz. E, também porque pela bondade de Deus não cometi atos grandes como por exemplo, tirar a vida de uma pessoa, roubar, trair, e outras coisas as quais a sociedade acha indesculpável. Meus deslizes foram nas relações do dia a dia, no comum da vida, e sem grandes consequências sociais.
A conclusão que cheguei nesta minha visita em minha própria história é que Perdoar é mais do que o ato de desobrigar a alguém a cumprir o que era o seu dever, é mais do que renunciar direitos. Descobri que é antes de mais nada, compreender a natureza humana, reconhecendo que a capacidade que trago em mim de errar, é a mesma que está dentro do outro. Achei difícil este caminho, onde o outro é visto sem as lentes da condenação, sem os lugares de monstros. Percebi que sou como os que me feriram, e confesso, não gostei deste lugar do humano... era mais confortável acreditar que sou melhor do que aqueles que me não me pouparam de dores. 
Mas, as palavras do Cristo ao ser crucificado pedindo ao Pai para perdoar aqueles que o entregaram porque eles não sabiam o que faziam, me soaram pessoais nesta minha investigação... Vi que na vida, foram muitas as coisas que eu não sabia, mais fiz. E pensando fazer o certo, feri quem não merecia. Pai, mãe, irmãos, filhos,  marido, amigos, irmãos da fé, colegas de trabalho, amores que não vingaram... Ah... quantas palavras e gestos desnecessários, quanta omissão tendo nas mãos as soluções do outro. 
   Drogabela, personagem criada para falar das drogas,
 mais me pergunto, ela vive dentro de mim?
COMPREENDER QUEM SOU NÃO É TAREFA FÁCIL, a natureza humana é carregada desta possibilidade de não saber e ainda assim fazer, o que não é bom e nem justo.
Freud feriu o nosso orgulho quando nos disse que não somos senhores da nossa própria casa. Ele constatou uma força estranha dentro de nós, a nos impedir de ver óbvio em nossa própria vida. Força esta que nos domina sem que a gente saiba estar escravizado.  E nos damos conta do seu alto poder, quando atordoados exclamamos: o que foi que eu fiz? Como não vi isto antes? Como fui capaz de tal atitude? Porque escolhi isso para mim?
O grande rei Davi também passou por isto. E antes de Freud, fez a leitura desta realidade do seu coração, quando pediu a Deus que o absolvesse das faltas que lhe são ocultas, reconhecendo em si mesmo o potencial de fazer coisas as quais ele não se dava conta, porém, poderia afrontar o Deus a quem ele servia. Ele viu sua possibilidade de  fazer coisas sem saber o tamanho do estrago delas, coisas as quais ele não confessava nomeando-as porque não podia ver por si mesmo.  Freud tinha razão, o inconsciente governa. 

Talvez esteja pensando, 'eu não seria capaz de matar alguém, de um comportamento pedófilo, de trair meu marido, de roubar meus pais'... Eu de verdade creio que não seria mesmo, entretanto, aqui eu não falo dos atos graves ou leves, eu falo daquele potencial de maldade que trazemos, que tantas vezes se revela no olhar com raiva para outro humano, naquele não gostar do desconhecido, na palavra de fofoca, na expectativa de ser bajulado,  no desinteresse pelo outro, no cortar a fila do banco, no impedir que o outro apresente seus dons, na falta de educação na rotatória, na falta de gratidão pelo que recebe de graça, no comer tudo que está na geladeira sem deixar nada para o outro, no desejo de ocupar o poder para roubar como políticos corruptos, no querer tudo para si, na omissão em fazer o bem... 
Somos falhos.
Todos erram em alguma medida.
Todos precisam perdoar e ser perdoados. 
Porém, é complicado  acolher a realidade de que não somos melhores do que aqueles que nos machucaram. 
Contudo, creio que sem está compreensão profunda na alma, perdoar é mesmo uma missão impossível, e no máximo, vamos apenas conseguir deixar para lá o outro que nos incomoda.
NÃO É FÁCIL PERDOAR SE NÃO FAZEMOS A LEITURA CERTA DA NATUREZA QUE TRAZEMOS DENTRO DE NÓS.
Jesus ao nos ensinar o PAI NOSSO nos expõe. Para ele, todos precisam buscar o perdão, e devem fazer isto na medida em que perdoam os que lhe são devedores. Ele não deixa dúvida, nos coloca no mesmo lugar do que errou conosco, e deixa claro que o perdão do PAI é para quem perdoa. 
A sua lógica é fácil de compreender, mas não é fácil de aceitar, mas se perdoar é preciso, é urgente tentar.
A melhor descoberta que fiz nesta minha investigação tão melindrosa, é de que quanto mais consciente do que somos, mais espaço vamos ganhando em nossa própria casa. É no confronto com a realidade das trevas que carregamos, das nossas ambiguidades, da nossa incapacidade de sermos realmente justos,  que nos tornamos mais livres para viver sem o peso da mágoa. 
O olhar para o outro que nos feriu será com mais misericórdia, porque sabemos que somos feitos do mesmo material. SOMOS HUMANOS.
É claro, perdoar é um caminho, é um processo, saber isto pode tornar mais fácil, mas não nos livrará da estrada sinuosa que compõe as  nossas relações. E sobre isto falarei na próxima quarta. Até lá.

Referências:
Artigo da Revista Bioética - http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=361533249011
https://pt.aleteia.org/2015/11/16/7-dicas-infaliveis-para-aprender-a-perdoar/
http://www.revistaprogredir.com/blog-artigos-revista-progredir/o-proposito-de-perdoar
Mateus 6:9-13
Salmos 19:12

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