quarta-feira, julho 23, 2025

Posso descansar

 


‘A eternidade é um dia longo’1.

Coloquei na terra um vaso e plantei uma semente com todo o cuidado que exige um plantio. Ao lançar a semente na terra, meu coração pulsou numa expectativa feliz na possibilidade da vida.

Um, dois, três, quatro e no quinto dia a semente brotou. Nossa?! Diante da vida, a vida pulsa em meu peito. E, como uma menina feliz por ganhar uma boneca, eu me alegrei.

Dentre todas as reflexões que me visitam ao plantar uma semente e vê-la germinar, o pensamento que não sou eu a controlar a vida me traz uma calma de quem está deitada junto às águas de descanso2.

Descubro que eu só posso pegar as sementes que a mim foram confiadas, preparar a terra, lançar a semente e regar.  Este é todo o meu trabalho. Mas, a vida que se fará ou não, que maravilha, eu não tenho nenhuma possibilidade de comandar.

Sim, eu tenho o que fazer. Não obstante, até o que tenho é semente que brotou de uma vida que não gerei. Então descubro que a vida que nasce é sempre um lembrete do Deus que está a tudo controlar.

E a ansiedade, esta visita insistente a trazer tensão, se dissipa como a neblina no raiar da manhã.

Sim, a eternidade é um dia longo... Eu nela vivo. Sei que tenho tempo para ver a vida sempre florescer.

E você?

Roseli de Araújo

Escritora e Psicóloga

Referência:

1.       Richard Baxter. Livro Media estas coisas, página 55.

2.       Salmo 23: 2,3

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, julho 20, 2025

Da prisão ao Palácio

 


Tudo começou quando seu pai fez a ira nascer no coração dos seus irmãos por tratá-lo como preferido. E seus irmãos irados o venderam, tornando o José, filho do papai, em escravo na terra do Egito.

Agora, seus sonhos de grandeza não faziam nenhum sentido quando chorava a traição dos irmãos e a saudade do pai e do irmão querido. E o futuro que estava diante dele se tornou sombrio.

Mas ergueu os olhos com uma fé insistente e fez do lugar que foi levado, terra a plantar a liberdade.

E o tempo que o levou a dias tão duros, passou como passa para todos. 

E quando tudo começou a ir bem, foi preso por fazer o certo e passou a ver o sol pelas grades da injustiça. Mais uma vez a vida pareceu conspirar contra ele. 

Todavia, da prisão ao palácio, José seguiu fazendo o certo e pavimentou um futuro que não podia contemplar com os olhos. Não se perdeu tentando encontrar culpados. Não cultivou a amargura do porquê comigo. Não aceitou que o seu fim podia ser determinado por inimigos. 

Antes, José conquistou amizades. Fez de onde passou um lugar melhor. Usou o dom recebido, decifrando sonhos que não eram os seus. Mantendo firme a certeza que não estava sozinho. 

José, com certeza, não podia supor toda a trama do propósito que estava sendo tecida. Contudo, guardou seus sonhos dados por Deus como uma semente que nenhuma terra seca poderia contê-la.

Da prisão ao palácio os dias não são nada fáceis. Mas, quem decidi viver como José, verá o Senhor no silêncio do dia mais tenebroso. E vendo-o, saberá que sua vida cumpre propósitos até alcançar o porto.

sexta-feira, julho 18, 2025

Temos Pai?

 


Abrimos o aplicativo do banco. E uma angústia visita. A vida está cara. As compras do básico têm o preço de objetos de luxo, e saímos do supermercado assustados com as poucas sacolas. As contas não param de chegar. E quando conseguimos, com muito custo, pagar as contas de um mês, outro se inicia.

A noite chega, e como é difícil dormir quando se carrega o peso da falta de dinheiro. Sem sono, pelas pré-ocupações do que fazer para encontrar saída deste túnel escuro, ficamos a pensar no que inventar... E a paz parece fumaça que se perdeu no tempo.

Contudo, tem um mal ainda mais cruel que nos assola. A necessidade de ter o que não é necessário. E corremos atrás de tantas coisas que já perdemos de vista a verdade que a vida não consiste na quantidade de bens que conquistamos ao longo do caminho1.

Dizemos: A nossa casa é o céu. Todavia, vivemos em prol de construir patrimônios nesta pátria que não é a nossa. Nem mesmo o dia do luto é capaz de nos advertir que desta vida nada vamos levar e saímos de um velório preocupados com o que temos que conquistar.

Buscar o reino de Deus e a sua justiça para todas as coisas serem acrescentadas2 parece mais história de ficção do que promessa do Deus todo poderoso. E seguimos cansados como qualquer outro que não crer, porque deixamos de buscar o reino de Deus em primeiro lugar, pois temos que construir o nosso. 

O pior que nos ocorre é que esta escolha nos deixa à deriva, neste mar turbulento da ansiedade, como se não estivéssemos no navio da graça.

Seguimos afirmando a nossa fé no pão da vida, com fome de mais, mais, mais... Temos água da vida e vivemos com sede.

Somos a luz do mundo, mas estamos trancados no quarto escuro da incredulidade, vivendo como luz de vela no final do pavio. 

Somos o sal da terra, todavia, contentamos em ser pisados pelos homens todo dia, ao nos submetermos ao sofisma que para ser temos que ter.

Pregamos sobre o Deus da provisão, do Soberano no controle, mas nem nós mesmos estamos convencidos destas verdades, porque elas não nos acalmam mais. A verdade é que a nossa alma o tempo todo grita por águas de descanso.

Que estranho... Parece que estamos perdidos no reino de Cristo, como se fôssemos do mundo que jaz no maligno3. E nos tornamos os mais infelizes de todos os homens porque não vivemos da graça que já recebemos.

Que hoje, Deus nos ajude a fechar o aplicativo do banco como quem não é órfão do Pai.

Roseli de Araújo

Escritora e Psicóloga clínica

 Referência:

1.       Lucas 12:5

2.       Mateus 6:3

3.       IJoão 5:19




domingo, julho 13, 2025

Cuidado e o tempo

 


Cuidar de nós mesmos para que o coração não fique sobrecarregado com as preocupações deste mundo’1 é uma ordem de Jesus, mas, quem tem tempo para pensar sobre isso?

Os dias parecem curtos demais e o tempo parece correr a 200 km por hora, impondo sobre nós uma ansiedade por um fazer sem pausa.

E a pressa é como um poderoso espírito que paira, gerando uma ânsia que corrói por dentro e por fora, mimando nosso corpo como um câncer silencioso a roubar a vida sem assustar, cada dia e mais um pouco.

Sem tempo, seguimos a conquistar o que é imposto que preciso. Logo, já não ando devagar. Não me permito ver a beleza e nem a feiura do caminho. E o respirar com calma parece uma tarefa de outro mundo.

O corpo não se cala diante da imposição do não ter tempo. Uma angústia emerge por dentro. Ficamos inquietos. Uma irritação que nada ajuda comparece. A expectativa de um futuro que não vale a pena domina. O coração bate com desespero. O sono é roubado. A concentração viaja sem permissão. Às vezes as mãos ficam trêmulas, outras vezes o suor escorre. Uma fraqueza nos faz sentar sem querer. Ombros e costas parecem carregar o mundo. Contudo, não paramos a despeito de todo sinal dado pelo corpo.

Todavia, o corpo segue clamando.

E a ordem de Jesus para cuidarmos de nós mesmos, para que o coração não fique sobrecarregado com as preocupações deste mundo’, nos livraria de toda morte que nos espreita. Ela nos traria a vida que acreditamos comprar nas farmácias. Ela faria o coração carregar o que é eterno, tornando-o leve como uma pena. Sua ordem obedecida nos faria viver e não apenas existir.

Mas, quem tem tempo para pensar sobre isso?

Roseli de Araújo

Escritora e Psicóloga

Referência:

1.     Evangelho de Lucas 21:32

quinta-feira, julho 10, 2025

Todos?


Deus está perto de todos os que o invocam... Diz o salmista1.

Todos? Sim, todos:

De todos os que cantam de alegria e de todos que choram de tristeza.

De todos que celebram a chegada de um bebê e de todos que choram a morte de um filho.

De todos os que estão vivendo na luz e de todos os que estão vivendo na escuridão da noite.

De todos que sobem aos céus e de todos que fazem sua cama no mais profundo abismo2

De todos os que contemplam o fruto do seu trabalho e de todos que creem que seu trabalho só trouxe cansaços.

De todos que estão cercados por amigos e de todos que se assentam na mesa com seus colegas falsos3.

De todos que a fé está fortalecida e de todos que a incredulidade visita.

De todos os que estão de pé e de todos os que caem.

De todos que estão cercados de recursos e bens e de todos que experimentam a falta do básico.

De todos que estão saudáveis e de todos que estão doentes.

De todos que realizam seus sonhos e de todos que vivem a frustração de não conseguir o que tanto deseja.

De todos que vivem a hora do abraço e de todos que vivem o afastar-se de abraçar4.

De todos que preparam a terra para a semente e de todos que separam as ferramentas para colher.

De todos que buscam o que desejam e de todos que perdem o que tanto quis guardar.

De todos que decidem manter e de todos que optam por dividir,

De todos que falam e de todos que se calam.

Este, todos, me consolaria se o salmista Davi não me informasse que ‘Deus está perto de todos os que o invocam em verdade1. Logo, há um grupo de pessoas que não está no todos.

E o meu coração se agita. Eu sei que a verdade não é algo fácil para quem sabe que não sabe tudo de si. Logo, o que provou a verdade traz no peito a humildade de reconhecer que não sabe tudo, que não vê tudo, e que precisa buscar Aquele que tudo sabe e tudo vê. E a verdade de saber que não sabe já é verdade para se admitir.

          Deus também se compraz, na verdade, no íntimo’5, me informa Davi. Jesus me diz que o Pai procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade6. O autor de Hebreus me exorta a aproximar-me de Deus com sincero coração… ’Percebo que a verdade é caminho onde não se pode desviar quem a Deus deseja. 
          E nesta estrada, onde a verdade habita, sinto que meus pés são feridos. Já não consigo mais andar por onde quero, contudo, sei que é o único caminho para ter Deus por perto.  

Roseli de Araújo

Escritora e Psicóloga

Referência

1.        Salmo 145:18

2.       Salmo 139:8

3.       Salmo 23:5

4.       Eclesiastes 3:5

5.       Salmo 51:7

6.       Evangelho de João 4:23

7.       Hebreus 10:22