quarta-feira, junho 04, 2014


 O mito do príncipe encantado ainda sobrevive?


  Certo dia, fui visitar uma senhora com uma amiga e seu avô. A visita coincidiu com o primeiro  aniversário da morte do marido da nossa anfitriã. Ela tinha sido casada por 65 anos. Iniciando os últimos 20 anos do casamento, seu marido adoeceu. Ela cuidou dele. E o que me impressionou é que sua fala era de saudade. Não de alívio por ficar livre de ter que cuidar de um doente. Havia em seus olhos azuis uma dor, que ela mesma definiu como infinita. A lembrança do seu amado era certamente a melhor que ela tinha. Então, resignada, agradecia a Deus por ter tido aquele homem em sua vida. Minha amiga, então, me disse: “É possível um relacionamento dar certo”.
Sim, é possível.    

Mas será que estamos dispostos a investir em uma relação amorosa?
 
O mito do príncipe encantado não está mais na moda entre as mulheres, porém desconfio que elas continuem acreditando nele. Falando numa linguagem psicanalítica, trazem esse mito no inconsciente. 

As mulheres, hoje em dia, querem homens “estudados” (com formação acadêmica), sarados (de preferência com a barriga “tanquinho”), que tenham dinheiro para pagar as contas (um grupo pequeno concorda em dividir, embora praticamente todo nosso discurso seja feminista), que sejam empreendedores, parceiros na cozinha, na arrumação da casa, que sexualmente tenham desempenho cem por cento, que sejam amigos, companheiros, cúmplices e, sobretudo, que sejam capazes que aguentar a TPM (Tendência Para Matar? ou Manipular?)

Você, mulher moderna, espera esse homem. 
Quem não espera?

Mas a vida é feita de realidade.

E, de acordo com Fernando Pessoa, “a realidade é sempre mais ou menos”. Aquela senhora que viveu 65 anos em um relacionamento se deu conta da realidade. E a realidade é que vamos envelhecendo, o mercado não tem espaço para todos, a política econômica afeta nossa vida, a barriga cresce, a celulite aparece, o pinto cai. 

Dizem que depois dos quarenta a vida começa. Eu me pergunto: começa para o que e para quem? O corpo já demonstra sinais do tempo que se impõe tanto quanto a realidade. Dores que nunca sentíamos passamos a sentir, as rugas começam a aparecer. E as mulheres em nossa cultura que o digam, enquanto os homens são mais charmosos aos 50, a sensação que tenho é que as mulheres já estão com suas datas de validade vencidas (meu irmão mais novo sempre me lembra isso, será por quê? Faltam ainda 7 anos para eu chegar aos 50). Você também tem essa impressão?

Mas a realidade é que se impõe. E o príncipe encantado daquela senhora tinha suas limitações. Durante vinte anos ele necessitou ser cuidado. 
De verdade, quem hoje em sã consciência deseja viver uma história de amor assim?

Achamos linda essa história e tantas outras, até suspiramos ao ouvi-las, mas o homem que queremos tem que ter tantas qualidades...e, como diz uma amiga, deveria ter como montar esse homem. O meu ficaria com a inteligência do Leandro Karnal (Historiador, Doutor formado na USP), com a estabilidade de um funcionário público com um salário acima de 10.000 reais, e o corpo do Henry Cavill. E o seu?


Deixa eu voltar para a realidade. 


As pessoas são pessoas. O que quer dizer que nada pode ser perfeito. As pessoas sofrem dores físicas e emocionais, envelhecem, ficam desempregadas.
 A realidade é que lidar com gente é sofrer de alguma maneira; mas, mais do que isso, con-viver com gente é sofrer, com certeza. Talvez por isso escutemos tanto que é melhor cuidar de cães, gatos etc. Com o que eu, enquanto psicóloga, discordo completamente.

Por isso, eis a questão: Você quer mesmo um relacionamento?

 E mais: nesses dias em que o individualismo triunfa, quem quer e quem pode investir em um amor que dure a vida inteira?
Acreditamos que a vida sem compromisso é boa. Por vezes, pessoas casadas suspiram ao ver os solteiros com sua possibilidade de ir e vir; por vezes, os solteiros suspiram por alguém a quem se prender. Eterna insatisfação.

Entretanto, a verdade é que, para construir qualquer relacionamento, é necessário investimento. Significa ajustar agendas, gastar tempo em conhecer o outro, sua família, seus amigos, seu mundo, significa encontrar o caminho da flexibilidade, que não é fazer tudo o que o outro quer, mas é fazer também o que o outro quer; significa centrar-se no que a pessoa tem de valor, não desconsiderando suas dificuldades, sejam elas quais forem, mas olhando-a como pessoa, que como você e eu sofre as dores humanas. E pessoas são sempre problemáticas, em alguma área sempre vão precisar de reforma (Freud já dizia “todos são neuróticos”). Investimento significa abrir mão da idealização para a realidade. Significa ver o outro em sua necessidade. 

Relacionar-se é desenvolver a capacidade de se dar ao outro.

Então, esse papo de que não é necessário deixar de ser você por causa do outro guarda certos limites. Devemos guardar nossa essência e não negociá-la jamais, mas para construir uma história de amor é preciso sacrifício.
Por essas e outras, afirmo: relacionamento dá trabalho. É isso mesmo que você quer?





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