sexta-feira, abril 20, 2018

Gosto

Gosto do conforto de uma roupa velha. Gosto da chinela que não aperta. Gosto de sentar a mesa do computador com alma a passear no mundo das palavras. Por vezes vou longe para encontrar a palavra que encaixa. 

E nesta brincadeira eu me perco, mas, meu bom relógio marca o tempo sem trégua. Em sua insistência, não me deixa esquecer o mundo que guarda agenda.
E neste universo concreto me realizo com gente de carne, de olhos brilhantes ao me permitir conhecer seus universos. E não há nada mais tão belo!
Faço o que amo, e me dou conta de que para os amantes não há rotina. É que o amor tem em si a magia do que se renova.

Roseli de Aráujo

Psicóloga clínica
Agendamento para consulta
 whatsApp (62) 982385297

quarta-feira, abril 18, 2018

Perdoar é preciso IV?

Oi gente, nesta quarta sigo falando sobre o perdão.

Se perdoar é um destino de quem escolheu viver com o coração leve, sem o peso da mágoa, então, necessário é compreender que toda viagem a um destino, guarda rotas que não devem ser transitadas. É que existe na geografia da vida a terra da inimizade. 
Nela mora pessoas que amam a guerra mais do que a relação. E elas fazem da violência física ou quem sabe, da sutil agressão psicológica, sua única linguagem. 
Nesta terra, desconfio, só mora gente que gosta de gente fantoche. 
Se não diz o que querem ouvir, se não escolhe o que lhes agradam, se não faz o que é mandado, saiba, não importa o quê ou o tempo em que viveram juntos, conhecerá a descortesia que um inimigo é tratado.
Estas pessoas costumam sugar tudo o que o outro têm. Pobre se torna a vida de quem plantar os pés na terra da inimizade. Abrigará em si mesmo a morte do sorriso sincero, da  espontânea alegria que mantém o coração leve.
É preciso, urgente, sair logo desta terra!
Pode ser fatal não compreender que perdoar nem sempre significa conviver. 
Nesta geografia da vida que tem a terra da inimizade haverá momentos que seguir sozinho é a única opção na trilha para se alcançar o destino do perdão, já que o outro não consegue dar o respeito que tanto requer para si. 
Se para conviver é preciso negar o sentimento, sempre dizer sim quando se quer dizer não, a estrada então é da anulação e não a do perdão.  
Quem negocia o tempo todo seus valores, o que pensa, o que deseja, se perde no desvio da raiva, do medo e da dor. Embora pareça ter companhia,  a muito tempo está só. 
Ah... Quantas mulheres apanham dos seus maridos como se fossem crianças desobedientes. Convivem com o desprezo diário revelado nas palavras sem ternura, na infidelidade declarada, na exigência de ser empregada. A elas é negado a consideração do lugar que em que ocupam, como se valor não tivessem. 
E milhares de mulheres neste Brasil "pacífico", tentam conviver com quem a violência é a única linguagem conhecida. Dói com sangria, ver suas vidas perdidas nos "tapas" de todo dia.
E como elas, tantas outras pessoas que vivem presa a falsa ideia de que perdoar é sempre con-viver, necessitam pra ontem, aprender com o rei Davi a salvar a suas próprias vidas.
Ele ao ser perseguido por Saul que estava determinado a matá-lo, fugiu por mais de 10 anos.  Teve por preciosa a vida recebida e por ela lutou, dando a si a oportunidade de viver em paz com quem foi possível. Mas, este bravo guerreiro nunca desviou o coração do destino do perdão. Tendo em suas mãos a possibilidade de executar vingança, não o fez, havia decidido viver sem o peso da mágoa.
Infelizmente,  ainda que se deseje manter a paz com todos, nem sempre será possível, e quando isto acontecer, quando  os esforços forem em vão, permita-se sair da terra da inimizade, sem jamais perder a direção do seu destino escolhido.

Na semana que vem seguimos...

Roseli de Araújo
Psicóloga clínica
Agendamento para consultas 
(62) 982385297


sábado, abril 14, 2018

Paciência:




É palavra esquecida em um baú perdido, neste tempo em que correr é compromisso já registrado na agenda.










E a sofrer o corpo chora de saudade da serenidade...
E vai morrendo sem tempo de buscar a resposta, se o que se faz, faz sentido, tem propósito.
Tanta coisa...Ufa!
Tantas palavras...
E a gente com sede apenas de vida.


Bom final de semana a todos com calma.

Psicóloga
Roseli de Araújo
Contato para agendamento de atendimento clínico
982385297

quarta-feira, abril 11, 2018

Perdoar é preciso III?

Oi gente, nesta quarta sigo falando sobre o perdão.


No último texto falei sobre a minha visão da necessidade de compreender a natureza humana, com suas luzes e trevas, se quisermos trilhar por este caminhoSe perdoar é preciso, conclui que é urgente compreender de que material somos feitos. 
Entretanto, neste texto irei falar sobre o processo do perdão.
Sei que você já percebeu que o perdão não é uma estrada reta. Ele guarda curvas sinuosas, pedras que ferem os pés, sol de julgamentos que nos queimam sem dó, tempestades que desorganizam e obstruem o caminho. Perdoar traz a tona o grande desafio que guarda as relações humanas, e nos põe à prova mais do que gostaríamos de supor...

Lembro do homem que invadiu minha casa em São Paulo, a qual tive que entrar na justiça para reaver. No dia da reintegração de posse, ele se apresentou a mim como alguém que havia cuidado e não invadido a casa. Seu cinismo me provocou uma indignação profunda. E vendo minha raiva expressa nas palavras de que eu não tinha nenhum prazer em conhecê-lo, gritou que o portão da casa, o qual eu havia comprado à vista, era dele e que o meu marido, já falecido, o devia. Fiquei impressionada com sua capacidade de mentir e a maneira como ele se fazia de vítima, depois de ter invadido minha casa por meses e roubado todos os acessórios dela, inclusive interruptores, janelas, portas, box do banheiro, gabinete e pia. 
Esta  experiência inaugurou um novo momento em minha alma, em que descobri que perdoar pode ser dificultado pela falta de lógica que enxergamos na atitude de uma pessoa, especialmente quando estamos vivendo um momento de dor, (e aquele era de luto para mim). 
Também, com o passar da vida, vi que o dia feliz pode trazer dificuldade para perdoar... Lembra quando o pai, a mãe, os avós, cuidadores, os irmãos, os amigos, o marido, os filhos, não fizeram questão de estar presente naquele dia significativo, onde fizemos uma apresentação na escola, uma homenagem ou quando pegamos o tão sonhado diploma? A solidão sentida pelas ausências podem provocar uma dor que torna o ato de perdoar uma estrada ainda mais confusa .
E o que falar da traição de um amigo e de um amor? É mesmo angustiante descobri que o lugar que guardamos com tanto respeito e atenção leal, foi violado. Dói uma dor sem nome o desprezo camuflado com atitudes que um dia acreditou-se sinceras. Certamente é  ferida diabética, difícil de cicatrizar.  

Mas, se perdoar é preciso, necessário é compreender que perdoar é viajar. 
E toda viagem necessita da decisão do destino onde se quer chegar, como o perdão só ocorre, quando decidimos perdoar. 
Sabe-se que uma viagem por mais pequena que se seja, cumpre uma série de etapas, logo, viajar é um processo tanto quanto perdoar. E, dos viajantes já se ouviu que tem viagens que são longas... 

Sabe aquele dia em que não dormimos a noite inteira e cedo precisamos levantar da cama para trabalhar, mas nossa vontade é desligar o alarme, quebrar o despertador, e dormir como se não tivéssemos nada para fazer, como se fosse um domingo ou um dia de feriado, acredito, que a escolha pelo destino de perdoar é mais difícil . Contudo, ao precisar do salário no final do mês, a sobrevivência martela, e somos por ela forçados a levantar. 
Mas, ainda que preciso seja estar bem emocionalmente, tanto quanto de suprir as necessidades mais básicas, trazemos um mecanismo para esconder o barulho do martelo das emoções que sinalizam as dores da alma. Talvez por isso, costumamos adiar esta decisão, mesmo que estejamos moídos pela noite que se abateu com densas trevas em nossa alma, não nos deixando dormir. E seguimos dando folga e feriado a alma magoada, como se nada tivéssemos a fazer. Como se não fôssemos os responsáveis pela nossa sobrevivência emocional, desprezando os alarmes por ela dado. E a alma cansada da nossa procrastinação, começa gritar para sobreviver...
E, este grito se traduz no corpo, que passa a sentir dores ao nível da pele... Pequenas manchas que doem ao toque, feridas... Outras dores mais profundas... Ao nível dos músculos, ossos, articulações, tendões, ligamentos, nervos... Orgãos inteiros... E a saúde comprometida fica com a alma desesperada para ser ouvida, deixando a vida correr o risco de entrar e ficar na UTI.
Pode-se adiar esta viagem, como se ela não tivesse que ser feita, mas as pesquisas mostram que não seremos poupados das consequências. A falta da caminhada em direção a este destino, nos trará relações quebradas, cadeiras em nossas casas ocupadas pela desconfiança e solidão. O corpo sofrerá pelo peso da paz em falta e pela ausência da leveza no coração que só o perdão pode dar.

O primeiro passo para o destino do perdão é o mais difícil. E a realidade de que ele não é suficiente para nos levar onde queremos chegar pode desanimar muito, entretanto, qualquer viagem exige outros passos... O segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto... Dezenas e milhares de passos até chegar lá.
Logo, perdoar é uma decisão que exige a compreensão de que a dor faz parte do caminho, e as feridas feitas precisam de tempo para serem curadas. Não existe mágica, mas, o milagre de discernir que vale a pena buscar a paz em toda e qualquer relação, no que depender das nossas escolhas. 
E o primeiro passo pode parecer difícil, confuso, sem visão do que vem pela frente... Porém, quando ele é dado com verdade de alma, nasce uma certeza, uma paz, uma força que capacita para os outros passos. E a cada passo, está experiência se renova. É que a Vida não nos deixa sem os recursos quando queremos viver de fato, e ainda que a viagem seja cansativa, chegaremos ao nosso destino. 
O que nos manterá na viagem, não é a vontade condicionada aos sentimentos que a dor produziu, mas aquela vontade que deseja viver com paz, ainda que o custo seja caro. 
Depois que se alcançou a compreensão de que o perdão é um preço que vale a pena pagar, seja ofensor ou ofendido, vive-se uma das viagens mais confortantes e restauradoras da vida. 
Por isso, se perdoar é preciso, pemita-se.

É certo que a viagem do perdão tem etapas que não depende da gente... Este assunto porém, iremos falar na próxima semana.

terça-feira, abril 10, 2018

Estes são os meus instrutores da academia CT SKILL BOX em que estou tentando fazer crossfit, digo tentando, porque eita desafio é conseguir terminar qualquer round rsrsrs...
Aulas de segunda a sábado.
                                        Agende sua aula experimental 
                                   Ligue:  (62) 3988-9603/📱whatsapp (62) 98118-8927

Eles conseguem fazer com que uma hora pesada de treino se torne um momento descontraído. O bom humor impera no jeito tranquilo do Pedro e nas brincadeiras do Hugo. 
Jamais pensei que pudesse me divertir em uma academia, mas tenho descoberto que o jamais é matéria de outro planeta, afinal nesta nossa terra realmente tudo é possível.
E vou descobrindo, com estes pacientes instrutores, entre um treino e outro, que a melhor competição é aquela que fazemos conosco mesmo. Também aprendi que está tal comparação é uma irmã invejosa que devemos manter bem longe, afinal de contas, no crossfit, aprendemos que ninguém é bom em tudo.
Em meio a tantos profissionais mais ou menos que compõem o mercado brasileiro, é mesmo muito bom encontrar gente  competente e feliz com o que escolheu fazer na vida. 
Gente assim, sabe motivar uma senhora de meia idade, que chegou na academia com o sorriso esquecido de tão deprimida, com pouco equilíbrio e a sensação de que nunca acompanharia um treino, se apaixonar pelo exercício físico.
Agora mesmo com joelho "faiado", como me lembra de maneira divertida o Hugo, encontro dentro de mim entusiasmo para ir aos treinos. 
Sou grata a eles pelo profissionalismo mantido sem perder o humano de vista e pelo bom humor de sempre que contagia.

Meu marido já se aliou a eles e me comunicou que nunca mais estou autorizada a parar o crossfit rsrs... Afinal, coração feliz e corpo leve faz bem pra qualquer um.

A Deus toda gratidão pela alegria que voltou a cada gota de suor derramada no tatame da academia.







quarta-feira, abril 04, 2018

Perdoar é preciso II?


No meu primeiro texto eu lhe convidei a espiar o seu coração, e fui também instigada pelo desafio que fiz. 
Li artigos e textos interessantes, os quais deixarei citados nas referências para que você leia, caso queira, entretanto, decidi falar hoje, o que pulsa em meu coração sobre este tema. 
Olhando para a minha trajetória, me estremeci ao perceber que perdoar nunca foi uma tarefa fácil para mim, embora boa parte da minha vida sempre acreditei não ter dificuldade.
Aos 46 anos, vejo que perdoar só pareceu fácil, quando pessoas que me magoaram em determinados momentos da minha vida, atingiram apenas superficialmente minha alma, fazendo leves arranhões, que uma boa conversa e pouco tempo foram capazes de curar.
Entretanto, houve momentos que pessoas me dilaceraram...  e algumas delas quando a alma já estava dolorida... E estas pessoas me revelaram o que de mim eu não sabia, não é mesmo fácil perdoar quando somos atingidos de maneira mais profunda. 
Fiquei pensando também nas pessoas que sei ter machucado na trilha da vida... Senti uma imensa dificuldade em me colocar no lugar delas, porque ao conversar comigo mesma, sempre encontro uma razão para ter feito o que fiz. E, também porque pela bondade de Deus não cometi atos grandes como por exemplo, tirar a vida de uma pessoa, roubar, trair, e outras coisas as quais a sociedade acha indesculpável. Meus deslizes foram nas relações do dia a dia, no comum da vida, e sem grandes consequências sociais.
A conclusão que cheguei nesta minha visita em minha própria história é que Perdoar é mais do que o ato de desobrigar a alguém a cumprir o que era o seu dever, é mais do que renunciar direitos. Descobri que é antes de mais nada, compreender a natureza humana, reconhecendo que a capacidade que trago em mim de errar, é a mesma que está dentro do outro. Achei difícil este caminho, onde o outro é visto sem as lentes da condenação, sem os lugares de monstros. Percebi que sou como os que me feriram, e confesso, não gostei deste lugar do humano... era mais confortável acreditar que sou melhor do que aqueles que me não me pouparam de dores. 
Mas, as palavras do Cristo ao ser crucificado pedindo ao Pai para perdoar aqueles que o entregaram porque eles não sabiam o que faziam, me soaram pessoais nesta minha investigação... Vi que na vida, foram muitas as coisas que eu não sabia, mais fiz. E pensando fazer o certo, feri quem não merecia. Pai, mãe, irmãos, filhos,  marido, amigos, irmãos da fé, colegas de trabalho, amores que não vingaram... Ah... quantas palavras e gestos desnecessários, quanta omissão tendo nas mãos as soluções do outro. 
   Drogabela, personagem criada para falar das drogas,
 mais me pergunto, ela vive dentro de mim?
COMPREENDER QUEM SOU NÃO É TAREFA FÁCIL, a natureza humana é carregada desta possibilidade de não saber e ainda assim fazer, o que não é bom e nem justo.
Freud feriu o nosso orgulho quando nos disse que não somos senhores da nossa própria casa. Ele constatou uma força estranha dentro de nós, a nos impedir de ver óbvio em nossa própria vida. Força esta que nos domina sem que a gente saiba estar escravizado.  E nos damos conta do seu alto poder, quando atordoados exclamamos: o que foi que eu fiz? Como não vi isto antes? Como fui capaz de tal atitude? Porque escolhi isso para mim?
O grande rei Davi também passou por isto. E antes de Freud, fez a leitura desta realidade do seu coração, quando pediu a Deus que o absolvesse das faltas que lhe são ocultas, reconhecendo em si mesmo o potencial de fazer coisas as quais ele não se dava conta, porém, poderia afrontar o Deus a quem ele servia. Ele viu sua possibilidade de  fazer coisas sem saber o tamanho do estrago delas, coisas as quais ele não confessava nomeando-as porque não podia ver por si mesmo.  Freud tinha razão, o inconsciente governa. 

Talvez esteja pensando, 'eu não seria capaz de matar alguém, de um comportamento pedófilo, de trair meu marido, de roubar meus pais'... Eu de verdade creio que não seria mesmo, entretanto, aqui eu não falo dos atos graves ou leves, eu falo daquele potencial de maldade que trazemos, que tantas vezes se revela no olhar com raiva para outro humano, naquele não gostar do desconhecido, na palavra de fofoca, na expectativa de ser bajulado,  no desinteresse pelo outro, no cortar a fila do banco, no impedir que o outro apresente seus dons, na falta de educação na rotatória, na falta de gratidão pelo que recebe de graça, no comer tudo que está na geladeira sem deixar nada para o outro, no desejo de ocupar o poder para roubar como políticos corruptos, no querer tudo para si, na omissão em fazer o bem... 
Somos falhos.
Todos erram em alguma medida.
Todos precisam perdoar e ser perdoados. 
Porém, é complicado  acolher a realidade de que não somos melhores do que aqueles que nos machucaram. 
Contudo, creio que sem está compreensão profunda na alma, perdoar é mesmo uma missão impossível, e no máximo, vamos apenas conseguir deixar para lá o outro que nos incomoda.
NÃO É FÁCIL PERDOAR SE NÃO FAZEMOS A LEITURA CERTA DA NATUREZA QUE TRAZEMOS DENTRO DE NÓS.
Jesus ao nos ensinar o PAI NOSSO nos expõe. Para ele, todos precisam buscar o perdão, e devem fazer isto na medida em que perdoam os que lhe são devedores. Ele não deixa dúvida, nos coloca no mesmo lugar do que errou conosco, e deixa claro que o perdão do PAI é para quem perdoa. 
A sua lógica é fácil de compreender, mas não é fácil de aceitar, mas se perdoar é preciso, é urgente tentar.
A melhor descoberta que fiz nesta minha investigação tão melindrosa, é de que quanto mais consciente do que somos, mais espaço vamos ganhando em nossa própria casa. É no confronto com a realidade das trevas que carregamos, das nossas ambiguidades, da nossa incapacidade de sermos realmente justos,  que nos tornamos mais livres para viver sem o peso da mágoa. 
O olhar para o outro que nos feriu será com mais misericórdia, porque sabemos que somos feitos do mesmo material. SOMOS HUMANOS.
É claro, perdoar é um caminho, é um processo, saber isto pode tornar mais fácil, mas não nos livrará da estrada sinuosa que compõe as  nossas relações. E sobre isto falarei na próxima quarta. Até lá.

Referências:
Artigo da Revista Bioética - http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=361533249011
https://pt.aleteia.org/2015/11/16/7-dicas-infaliveis-para-aprender-a-perdoar/
http://www.revistaprogredir.com/blog-artigos-revista-progredir/o-proposito-de-perdoar
Mateus 6:9-13
Salmos 19:12

quarta-feira, março 28, 2018

Perdoar é preciso I?

Nesta quarta inicio os estudos sobre o perdão. 

Sei que não será uma viagem fácil para quem se encontra magoado, ou para aqueles que  tomaram o caminho da indiferença. Já ouvi gente dizer 'eu perdoo, mas quero a pessoa bem longe de mim'...

Estaria errado querer a distância de uma pessoa ao descobrir que ela traiu sua confiança?  E quando aquela pessoa que por anos a fio dedicamos nossa amizade, descobrimos que ela é capaz de falar mal da gente pelas costas? E aquela pessoa que por uma escolha que fazemos a qual discorda, rompe conosco? E aquela pessoa que esperamos o seu apoio em tempo de crise, e ela nos deixa sozinhos? E aquela que nos fere quando machucados estamos por uma separação, um luto, uma perda financeira? E aquela que esperávamos proteção e ela nos expôs ao perigo? Esperávamos cuidados e ela nos violentou? Seria errado querer a distância daquele marido que agride verbalmente, esmurra, bate de cinto, tranca dentro de casa? E aquela que tirou a vida de alguém que a gente amou (e ama) muito?

Afinal de contas o que é perdoar?

O perdão vem sendo estudado nesta última década pela psicologia positiva. Contudo, a teologia e a filosofia há muito tempo repousa seu olhar sobre este tema tão importante para manter as relações humanas.
E falar de perdão é falar de dores humanas, é tocar feridas que gostamos de crer que foram cicatrizadas. Porém, eu lhe convido a se aventurar no único mundo conhecido e ao mesmo tempo desconhecido por você, o seu coração. 
Diz o autor de provérbios que 'cada coração conhece a sua própria amargura, e Jeremias, o profeta, diz que 'o coração é enganoso mais do que todas as coisas'. Será que vamos nos aventurar a olhar para nossas cavernas e reconhecer o que sentimos? Espiaremos o nosso coração?
Por isso convido você a refletir comigo sobre este tema que nos desafia a rever como estamos em nossas mais variadas relações. 

Afinal, perdoar é preciso?

Para refletir sobre o tema, irei falar as próximas quartas sobre os significados,  os resultados e os mitos sobre o perdão.
Aguardo você.
E se achar relevante, compartilhe.

Referências
Artigo - Revista Bioética 2009 17 (2): 297 - 308
https://www.significados.com.br/perdao/
Provérbios 14:10
Jeremias 17:9

quinta-feira, março 22, 2018


Artigo sobre o uso de psicotrópicos escrito por Marta Regueira Fonseca Pelegrini. Vale a pena ler sua reflexão sobre o uso destes medicamentos. Segue o texto copiado do link
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000100006 

RESUMO
O artigo propõe uma análise crítica do fenômeno do abuso de medicamentos psicotrópicos na atualidade. A base teórica é a psicanálise. A argumentação parte da discussão da subjetividade contemporânea, resgatando o conceito de mal-estar na civilização em Freud, para elucidar algumas das causas e dos efeitos desse fato atual.
Palavras-chave: Medicamento psicotrópico, Subjetividade, Cultura.

ABSTRACT
The article propose a critical analyse about the abuse of psychotropy medicines, usuing the theory of psychoanalyses and the discussion about the subjectivite process.
Keywords: Subjectivity, Culture.



A questão do inegável abuso que hoje se verifica no consumo de medicamentos psicotrópicos está a demandar séria reflexão. É fato consabido que, ao grave problema da automedicação, acresce-se uma prescrição excessiva, em especial dos ansiolíticos e dos antidepressivos, por parte dos médicos. O exame de uma possível interrelação entre esse fenômeno e determinados aspectos de nossa cultura é o objetivo a que nos propomos neste artigo. Nessa busca, tomaremos o caminho da análise da subjetividade contemporânea e da função do medicamento na cultura atual.
Segundo Birman (1999), a tendência moderna de construção da subjetividade em que o Eu se encontra situado em posição privilegiada leva a um autocentramento do sujeito. A subjetividade, no início da modernidade, tinha, como eixos constitutivos, as noções de interioridade e de introspecção. Sua moral, seus sentimentos e vivências íntimas definiam o homem. Atualmente, a exterioridade é o valor. Os signos externos, como os bens de consumo, são os delimitadores do que cada um é. Assim, a subjetividade assume uma configuração decididamente estetizante, em que o olhar do outro passa a ocupar uma posição estratégica na economia psíquica do sujeito. Os destinos do desejo assumem uma direção marcadamente exibicionista e autocentrada. Há, então, uma auto-exaltação desmesurada da individualidade num mundo de espetacular fosforescência. O que se procura é o engran-decimento da própria imagem.
Maia e Albuquerque (2000) definem a sociedade contemporânea como a da cultura da imagem, em que o instantâneo e a busca pela satisfação imediata e contínua dos desejos são os valores predominantes. O imediato é valor que permeia vários aspectos da cultura e constitui qualidade essencial a qualquer bem a ser consumido. Os sofrimentos, como a ansiedade , a angústia e a tristeza, que sinalizam circunstâncias e situações humanas e para elas preparam o homem, são aplacados pela medicação. “Busca-se permanecer no estado de prazer e alegria, ao preço de se eliminar parte da experiência humana. É como se, socialmente, não se reconhecessem mais a dor e a frustração como constitutivos do percurso rumo aos ideais de prazer e alegria. Dor e frustração deixam de ser indicadores dos limites inerentes à experiência daquele sujeito singular. Ou seja, veicula-se a idéia de que essa imagem ideal de pleno prazer está disponível para todos a mínimo esforço e que a não concretização desse modelo decorre de problemas particulares daquele sujeito” (Maia e Albuquerque, 2000, pg.83).
A temporalidade já não é a mesma. Predomina agora, sob a ordem do imediato, a exigência de se alcançar, ontem, o modelo ideal. Com essa urgência, o processo, antes de constituir-se em trajetória para uma meta, é vivido como obstáculo a ser superado. Experimenta-se, como da ordem do insuportável, o adiamento da satisfação que seria alcançada ao serem atingidos os ideais. Assim, todos os meios para alcançar resultados favoráveis – e imediatos - tornam-se válidos.
Impera, hoje, o apelo emblemático ao prazer. Um prazer que não se resume apenas à ausência de sofrimento, mas que há de ser intenso, imediato, não-negociável. O imperativo é: “quero agora, quero muito, quero tudo, e sempre”. O discurso social idolatra a posição de plenitude alcançada sem muito esforço. É a tentativa de abolição da falta, do vazio e de qualquer insatisfação. Já não se valoriza a satisfação “pequena”, “ordinária”, “comum”; o máximo de prazer - e que seja imediato - é o que se quer.
Estar sempre bem, de bom humor são os “estados de espírito” que o discurso atual valoriza. O desejo visa, sempre, à imediata satisfação, já que seu adiamento apresenta-se intolerável. Não há abertura para escolhas, e a negociação entre perdas e ganhos inexiste: “quer-se tudo, e agora!”
A publicidade é, a esse respeito, paradigmática: traz, ao consumidor, promessas de felicidade e de satisfação absolutas. Nas imagens veiculadas, há sempre um sorriso estampado nos rostos, de plastificada beleza, que vende a proposta de viver um prazer contagiante.
Segundo Birman (1999), a psicopatologia da “pós-modernidade” caracteriza-se por um funcionamento psíquico de fracasso na realização e na glorificação do Eu e na estetização da existência, ou seja, o fracasso em participar da cultura do narcisismo e do espetáculo. Daí a depressão, a síndrome do pânico, a toxicomania... Deprimido ou em pânico, o sujeito não mais está apto a exercer o fascínio da estetização da existência e passa a ser considerado um perdedor, segundo os valores axiais dessa visão de mundo. Surge, então, a droga, como solução viável. Com seu uso sistemático, busca-se desesperadamente o acesso à majestade da cultura do espetáculo e ao mundo da performance. Há que se glorificar o Eu, mesmo que, para tanto, os caminhos sejam os bioquímicos e os farmacológicos.
Penetra-se, então, no universo das drogas: das drogas ilícitas ou dos medicamentos prescritos pela Psiquiatria; participantes, tanto uma quanto o outro, do mesmo universo, na medida em que visam a tornar o Eu apto ao exercício da cidadania do espetáculo. Enquanto as chamadas drogas pesadas têm por fim a exaltação nirvânica do Eu, inebriando a individualidade para o desempenho na cultura da imagem, as drogas ditas medicinais pretendem, ao conter angústias e sentimento, capacitar o indivíduo para as mazelas do narcisismo.
Em meio a essas caraterísticas da contemporaneidade, a Psiquiatria ganhou, há apenas algumas décadas, com o desenvolvimento da Psicofarmacologia e da Neurologia, estatuto de ciência. Também deixou de ser uma disciplina voltada exclusivamente para o tratamento da loucura e passou a tratar dos pequenos “mal-estares” cotidianos e da “dor-de-existir”, com um conseqüente aumento da medicalização das dificuldades psíquicas e emocionais. Para cada mal, a Psiquiatria passou a ter um remédio.
Como movimento característico do último século, Calligaris (2000) aponta o buscar maneiras de medicar nossos “nervos”. Aos opiáceos sucedeu a cocaína, depois foi a vez dos barbitúricos, logo vieram as anfetaminas e, enfim, chegaram os ansiolíticos. Nessa sucessão, observa-se uma espécie de alternância: a uma substância a ser consumida para “subir” segue-se outra destinada a “descer”. Inicialmente, respostas a necessidades médicas logo são adotadas como corretivo da banalidade cotidiana. São substâncias que modificam a existência do homem e sua presença no mundo. Há, portanto, no seu uso, para além de um propósito terapêutico, um intento hedonista, visto que urge seja o sofrimento banido de qualquer maneira.
Ainda segundo Calligaris, o sucesso dos antidepressivos na década de 1990 não foi fruto de nenhum triunfo da ciência. Antes, é a conseqüência da nova atitude cultural: queremos que nosso sofrimento psíquico deixe de ser um drama subjetivo e passe a ser visto e vivido como um problema médico. Aos antidepressivos é pedido que tratem nosso mal-estar como uma disfunção do corpo, posição que leva a um assujeitamento, ou seja, o sujeito se retira de seu sofrimento, que passa a ser um mero distúrbio neurofisiológico. Instala-se a passividade: a pessoa não se vê como protagonista do seu adoecimento. Há como que a desistência da dura tarefa de mudar.
A busca, nos medicamentos, de uma cura padronizada para todos os males da alma é ressaltada também por Scliar (1997). Essa padronização pressupõe um discurso médico que imputa a simples causas orgânicas (falta de serotonina, excesso de dopamina) as dores de existir. E o entusiástico excesso nessa direção é tanto que, no pacote, incluem-se “doenças” até ontem consideradas não mais do que traços da personalidade, como o mau humor e o pessimismo, entre inúmeros outros.
Aí está a motivação mais do que suficiente para as pesquisas, que se multiplicam, com o objetivo de formular um remédio que propicie um estado de felicidade imune aos psiquismos, imperturbável diante das vicissitudes da vida: “a pílula mágica”. O sucesso dessa idéia deve-se, sem dúvida, à procura de um caminho fácil para o preenchimento do vazio interior - causa de ansiedade exasperante - que tomou conta das pessoas neste início de século. Apregoa-se a falácia de que, para cada sofrimento, físico ou mental, existe um “remedinho milagroso”.
Dentro desse quadro, não é de se estranhar que se tenham tornado estigmatizantes certos tipos de comportamento e de síndromes, como a depressão, por exemplo. Ela não é tolerada nem em si mesmo nem nos outros. E não é tolerada porque, sendo os indivíduos, em nossa sociedade, constantemente instados a tomar decisões, a mover-se, a fazer coisas, a agir, quem se isola e se recolhe a um canto é criticado, desprezado. Impossível negar a determinação social existente na forma como são considerados os distúrbios de humor, nos seus dois pólos: o maníaco e o depressivo. Nas sociedades competitivas, o pólo maníaco é muito mais aceito e, até mesmo, estimulado2.
Entretanto, é preciso diferenciar a depressão propriamente dita (com sintomas incapacitantes e que trazem muito sofrimento) das “baixas” do humor normal da vida. Há uma banalização do seu diagnóstico e qualquer tristeza ou “baixo astral” passa a ser depressão e com necessidade de tratamento.
Ainda segundo o médico, é grande o número de pessoas que procuram o psiquiatra não porque estejam doentes, mas porque desejam mudar o seu humor, sua personalidade, seu jeito de ser. Querem fazer uma maquiagem no seu psiquismo, no seu estado de espírito. O bem de consumo prometido é um comportamento standard, uma alegria artificial que não dá margem a alterações de humor, que pode ser percebida ao analisar as propagandas dos laboratórios farmacêuticos onde há pessoas estonteantes de tanta alegria e vigor.
A “substância mágica” da atualidade - e autorizada - é, então, o antidepressivo, o que mostra como a depressão é o espectro da modernidade. Mas esse estado humoral nem sempre foi considerado como doença. Para os filósofos na Grécia Antiga, bastava controlá-lo. A melancolia era uma predisposição que levava a um distúrbio dos humores, um excesso do que eles chamavam de bile negra, curável por dietas e purgas. Nada de preocupante e quase sempre associado à capacidade de criação do artista, filósofo ou herói. É a modernidade que vê na melancolia um problema, possivelmente por ser uma ameaça à inserção social do indivíduo e à capacidade produtiva.
Evidentemente, quem busca em remédios uma “máscara para a alma” precisa lembrar que são paraísos artificiais, para usar uma expressão do poeta francês Baudelaire (citado por Scliar). Essas substâncias podem fazer com que o sujeito se afunde de vez, mas com prescrição médica, pois não analisa na profundidade o que se passa com o sujeito, ou seja, não elimina as causas de seu sofrimento.
Bogochvol (1997) também traz uma reflexão crítica dessa situação. Explica que existe um novo paradigma e uma nova ordem na Psiquiatria com o desenvolvimento das neurociências. O campo psiquiátrico teria encontrado, enfim, com as neurociências, suas bases seguras, biológicas e mais que isto, teria se revelado como intrinsecamente biológico. Para o autor, estamos na Era do Prozac, no Reino dos Neurotransmissores, na Década do Cérebro... A Psiquiatria Biológica, a partir das Neurociências, propõe modelos biológicos para explicar uma gama extensa de fenômenos psiquiátricos e psicológicos: angústia, fobias, obsessões, depressão, esquizofrenia, farmacodependências, personalidades, delírios, inteligência, afetos, humor... O problema é que, em geral, tomam esses fenômenos redutíveis inteiramente à biologia. O fenômeno psicopa-tológico é concebido como produto de um distúrbio neurofisiológico tratável farmaco-logicamente. Nessa concepção, o sintoma expressa no plano psíquico aquilo que é primariamente um transtorno da neurotransmissão cerebral. Entre o psíquico e o psicopatológico haveria uma ruptura que é função de diferenças estritamente biológicas. Assim, nessa linha de pensamento, o biológico transforma o psíquico em psicopatológico, visto que o psíquico é tido como efeito do orgânico.
Dessa forma, o tratamento se resume em uma intervenção no corpo, para uma retomada do equilibro neurológico. Não se pretende mais, no discurso médico, a cura (que atuaria nas causas), mas a regulação do mal-estar: apenas uma eliminação dos sintomas.
Com a crescente melhora dos resultados terapêuticos obtidos pelos tratamentos medicamentosos, reduzindo drasticamente o tempo e o gasto econômico necessários para se obter um alívio do sofrimento e das limitações impostas pela dor mental, a Psicanálise (ou qualquer proposta de psicoterapia) passou a ver-se numa posição desconfortável quanto à justificativa de suas propostas clínicas, num mundo onde cada vez mais são valorizadas a eficiência, a rapidez e a garantia.
Freud pode nos ajudar a entender essa situação em questão. No texto O Mal-estar na Civilização(1930[1929]), ele traz a tese de que há um mal-estar inerente à constituição da cultura que seria resultado do antagonismo entre as exigências da pulsão e as restrições que a civilização impõe à sua satisfação. Nesse conflito se encontra o homem marcado pela insatisfação e pela infelicidade em uma busca infindável e infantil da felicidade perdida e jamais reencontrada.
Ainda segundo o autor, procuramos medidas paliativas para nos aliviar desses sofrimentos e decepções da vida, e entre esses paliativos existem basicamente dois tipos: satisfações substitutivas que diminuem o “sofrer” e substâncias tóxicas que nos tornam insensíveis a ele. Essa busca se embasa no fato de o “sonho” do homem ser a conquista da felicidade que pode ser alcançada pela busca de sensações de prazer ou pela diminuição do sofrimento. Nesse processo está o princípio de prazer atuando.
Entretanto, o homem procura formas de resolver o impasse colocado na constituição da civilização e na entrada na cultura. Nesse impasse, surge a tarefa de se passar do funcionamento no princípio do prazer, exclusivamente, para o princípio da realidade, onde o desejo precisa ser negociado, muitas vezes adiado. O imperativo do gozar abre espaço para formas socializadas de obtenção de prazer. Gradativamente, haverá a passagem do prazer imediato voltado para o auto-erotismo, lugar narcísico do eu ideal, para formas postergadas de prazer – ou formas de prazer mediado com o desenvolvimento do ideal do eu.
Outra forma de explicitar esse processo é lembrar que, na infância, o bebê alucina diante da insatisfação de seu desejo, como quando da ausência do peito. Com a constituição do aparelho psíquico, começa a negociação do desejo com a realidade, a possibilidade de adiamento ou mesmo de se lidar com a falta do objeto.
Nossa hipótese é que, enquanto cultura, estamos a cultivar essa primeira posição marcada pelo funcionamento de princípio do prazer e a evitar o caminho de constituição do sujeito faltante regido pelo princípio da realidade. Nesse sentido, o uso de substâncias psicoativas que alteram a percepção, os sentidos e o humor tem a função de permitir essa alucinação do objeto e da satisfação. Assim, usando drogas (lícitas ou ilícitas) torna-se possível atingir o ideal prometido pelo discurso corrente.
Martins (1995) vai numa direção que corrobora a discussão. Afirma que quando dizemos que o clima cultural ocidental parece dominado pelo espectro da melancolia é justamente por ser perceptível a criação de um mundo onde a alegria, a agitação, a alta produtividade, a fugacidade, o gozo rápido e múltiplo parece dominar as concepções mais comuns de felicidade. E lembra que essa insistência no triunfo só pode ser prenúncio da possibilidade de dor. A exaltação (do humor, do consumo, do prazer) pode ser vista como uma espécie de defesa contra uma possível dor que já começa a se apresentar.
Fica claro o movimento de evitação da dor e a posição de não se falar ou se perguntar sobre ela ou sobre suas causas. A questão é se essa evitação é resultante desse discurso do prazer ou de uma impossibilidade mesmo, que impediria qualquer outra “solução” que não uma evitação ou uma defesa maníaca. Essa impossibilidade pode ser vista como uma falta de recursos psíquicos defensivos para elaborar o que causa essa dor, como uma dificuldade na simbolização, ou um encurtamento do espaço psíquico que dificulta a elaboração das experiências de perda e dor.
Podemos nos indagar se não seria essa dificuldade de simbolização, essa redução do espaço psíquico que levaria a falhas ou mesmo à impossibilidade de se elaborar a falta primordial. Não poder simbolizar essa falta, elaborar a insatisfação que advém dela, leva a posições subjetivas marcadas pelo agir. Assim, as compulsões ou adições podem ser entendidas como respostas ao mal-estar contemporâneo, como uma tentativa de aliviar o sofrimento advindo da impossibilidade de simbolizar a castração.
O preço da civilização, retomando Freud, fica por demais oneroso, uma vez que a angústia resultante da renúncia aos desejos e da vivência da castração não simbolizada seria insuportável. Daí a necessidade de agir e da descarga em impulsos.
Precisamos retomar a idéia de que o mal-estar, definido por Freud como efeito da ausência de satisfação total ou da completude, é inerente à condição de ser humano, visto que este é um ser simbólico que saiu do registro da necessidade e entrou no do desejo (que é incompleto e sempre insatisfeito por sua natureza). O mal-estar, como resultado das negociações no processo civilizatório, como preço a pagar pela cultura, é fundante, porque funda, constitui o homem. Nesse caminho, não faz sentido tentar eliminá-lo, a não ser que se escolha viver na “ilha da fantasia” – propiciada pelas drogas, por exemplo, mas que não dura muito tempo.
Não se pretende aqui, com essa análise crítica, ignorar a validade da Psiquiatria e da Psicofarmacologia. Essas têm seu lugar na terapêutica das psicopatologias, principalmente aliadas a uma psicoterapia em casos de sofrimento intenso. Discutem-se, neste texto, as promessas de bem-estar e felicidade “oferecidas” pela mídia e a medicalização da dor-de-existir. Questiona-se a tomada de uma posição subjetiva em que se busca desesperadamente uma felicidade plena, mesmo que plástica e artificial. O problema é o homem contemporâneo não aceitar mais os chamados “altos e baixos da vida” e querer estar apenas no “alto”, o que faz com que muitas pessoas se considerem “anormais” por não compartilharem desse entusiasmo esfuziante.

Referências bibliográficas
Birman, J. (1999). Mal-estar na atualidade. A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.         [ Links ]
Bogochvol, A. (1997). Algumas reflexões sobre a psiquiatria biológica. Em: Pulsional Revista de Psicanálise. Ano X, no. 99.         [ Links ]
Calligaris, C. (2000). Deprimentes antidepressivos. Em:Pulsional Revista de Psicanálise . Ano XIII, no. 13.         [ Links ]
Freud, S. (1930[1929]) “O mal-estar na civilização” ESB, vol. XXI.         [ Links ]
Maia, M. & Albuquerque, A. (2000). Get there now! Cultura contemporânea, imediatismo e desamparo. Pulsional: revista de psicanálise. AnoXIII, no. 132, 81-88.         [ Links ]
Martins, F. (1995). Psicopatologia II. Semiologia psicanalítica: O sintoma simbólico. Brasília: Editora Universidade de Brasília.         [ Links ]
Scliar, M. (1997). Paraísos Artificiais. Em: Pulsional Revista de Psicanálise. Ano X, no. 99.Palavras-chave: Medicamento psicotrópico, subjetividade, cultura.         [ Links ]


Endereço para correspondência
Marta Regueira Fonseca Pelegrini
SCLN 207 bloco D sala 208
70 852 540, Brasília, DF, Brasil.
Tel.: 61 918 1233
Recebido 08/02/01
Aprovado 23/11/02


1 Psicóloga formada na Universidade de Brasília, Pós-graduação: Especialização em Teoria Psicanalítica, Mestranda em Psicologia Clínica na Universidade de Brasília. Trabalha em consultório particular e na Clínica Renascer para dependentes de drogas, Formação em Psicanálise pelo Percurso Psicanalítico

quarta-feira, março 21, 2018

O USO DE MEDICAMENTOS PARA ANSIEDADE

Oi gente, nesta quarta vamos falar sobre o uso de medicamentos para tratar a ansiedade. 


É muito importante ressaltar que nenhuma medicação deve ser usada de forma indiscriminada e sem receita médica. E o profissional mais habilitado para tratar os sofrimentos causados pela ansiedade são os psiquiatras. 

Muitos são os remédios indicados, e para cada caso, exige uma avaliação criteriosa para saber se de fato o uso do medicamento é indicado,  e, quando necessário a dosagem e o tempo do uso. 

Busque sempre um médico indicado. 

Infelizmente sofremos uma grave crise na formação dos profissionais brasileiros, desde da má formação técnica a falta de ética, o que deve nos fazer cautelosos nesta escolha. 

Sempre que receber um diagnóstico, busque ler sobre o assunto - conceitos, causas e tratamentos para que saiba quais são os tratamentos que estão disponíveis. 

E creia, você não é louco por sofrer de ansiedade. Sofrer é parte da condição humana. E graças a Deus, nada é permanente. 


Referências:

https://minutosaudavel.com.br/transtorno-de-ansiedade-remedios-sintomas-e-como-controlar/
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932003000100006




quarta-feira, março 14, 2018

Dicas de como tratar a ansiedade sem remédios II


Oi gente, eu sigo falando sobre as dicas de como controlar ansiedade, 
mas, gostaria de esclarecer que lidar com a ansiedade é algo bastante pessoal. E, devemos tentar avaliar o que está produzindo em nós níveis de ansiedade 
elevados. Caso esteja tendo dificuldade em fazer está avaliação, a busca de um profissional da área da psicologia pode ser um bom caminho. Os profissionais desta área estudam para serem capazes de descrever sensações, emoções, pensamentos, percepções e outros estados que possam motivar o comportamento humano.

Hoje falarei das duas últimas dicas para tratar a ansiedade sem medicamentos.
A primeira dica é a Psicoterapia




A psicoterapia é um método de tratamento de problemas psicológicos e emocionais baseado no conhecimento científico do funcionamento psicológico. E, só pode ser realizado por psicólogos credenciados ao conselho de psicologia da sua região.


Para quem é indicado a psicoterapia? 
Quando você se faz a pergunta, “será que é hora de procurar ajuda?”, é bem provável que a resposta seja sim. A terapia, apesar dos pré-conceitos e imagens errôneas que se faz dela, é sempre positiva pra qualquer pessoa que esteja sentindo a necessidade de, no mínimo, conhecer melhor certos aspectos íntimos seus que estejam ou não afetando sua relação com o mundo ao seu redor, sua percepção das coisas ou sua forma de enfrentar os problemas que a vida lhe apresenta.


Também pode ser aplicada a uma diversidade de situações clínicas em que se verifique sofrimento emocional e dificuldades de adaptação à vida, tais como, crises no desenvolvimento, luto e divórcio.

Como funciona o tratamento psicoterapêutico?


A frequência é combinada entre paciente e psicoterapeuta, de acordo com as necessidades do paciente. De um modo geral, as sessões ocorrem duas vezes por semana, uma vez ou quinzenal, com a durante de 40 a 50 minutos.


A segunda dica é a Acupuntura



Técnica da medicina chinesa, a acupuntura ficou cada vez mais popular desde a década de 70, e agora existem inúmeras pesquisas apoiando sua eficácia para ansiedade e outras condições mentais e físicas, tais como; dor, distúrbios de imunidade, doenças reumatológicas, inflamações e infecções, distúrbios cardiovasculares, sanguíneos, respiratórios, digestivos, urogenitais, ginecológicos, neurológicos, psíquicos, dos orgãos dos sentidos e estética.

A acupuntura é o tratamento realizado com punção de agulhas, sendo estas flexíveis, estéreis e descartáveis, com ponta arredondada, o que diminui consideravelmente a sensação de penetração das mesmas, não havendo comparação com as agulhas de injeção. A ação da acupuntura ocorre pela liberação de substancias tranquilizantes produzidas pelo próprio corpo. 


Como funciona?
São realizadas sessões de 15 ou 20 minutos, no mínimo uma vez por semana. A melhora pode ser notada em poucas sessões ou até mesmo na primeira. Para os ansiosos poderá produzir uma sensação de tranquilidade e reduzir o potencial de ansiedade.
É importante lembrar que o tratamento difere de pessoa para pessoa, funcionando muito bem para um grupo e para outro não. 

Semana que vem falaremos sobre o tratamento medicamentoso para a ansiedade.