quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Parte IV

Bem, a partir de agora, irei ser bem prática quanto ao que penso sobre nossa postura diante do luto. 
Como em toda cultura, temos os nossos rituais de passagem, e o velório faz parte desse pacote. Vamos lá. Primeiro deixa eu lhe contar um pedacinho da minha história.
Quando meu marido morreu eu estava em uma viagem missionária em Moçambique, África. Ele faleceu em uma segunda feira pela manhã, e conseguiram me encontrar às 23 horas do mesmo dia (fuso horário de 5 horas), não havia voo para o Brasil na terça feira e só consegui chegar a São Paulo, onde morava na época, na quarta-feira às 21hs.
O irmão do meu marido, o Elias, me ligou na terça feira para me avisar que eles não queriam estender o velório, e, eu de verdade, nessa época, concordei, porque afinal de contas, os pais do meu marido já estavam com mais de sessenta anos e poderia ser muito cruel estender por tanto tempo o velório. Na época, eu também não queria vê-lo, pensava que fosse melhor guardar a imagem última que eu tinha dele no aeroporto me abraçando, dizendo que me amava, dando tchau com aquele jeito divertido que só ele tinha. 
Porém, depois da sua morte, passei a ir a todos os velórios que havia na igreja. Até a data da sua morte, eu confesso que evitava. Sempre que ia a um velório, antes da morte do meu marido, jamais chegava próximo do corpo, tocar uma pessoa morta era algo inimaginável. A verdade, é que a morte era um assunto distante das minhas pautas de conversa, coisa dessa cultura burra, que nos torna despreparados para a única coisa certa que vamos viver na vida.
Com a morte dele isso mudou, passei a ir até onde o morto estava, a olhá-lo com curiosidade, a ficar ali, vendo sua expressão facial, como que tentando entender se através do seu rosto imóvel, o morto, transmitia como havia sido aquele momento em que partiu. Coisa de doido, né? Deve ser por essas e outras que fui para a psicologia rsrsrs.
Bem, além de observar o morto, fui detendo meu olhar também sobre as pessoas em volta do caixão, e das que iam chegando para o velório.
Percebi que a família reage de muitas formas, há aqueles que ficam ao redor do caixão, outros não querem ver, outros choram baixinho, outros não derramam nenhuma lágrima, outros, poucos, gritam sua dor, que logo também é abafada por alguém que tenta  conter-lhe  dizendo ‘não chore assim’. Na igreja Presbiteriana do Brasil , a qual participo,  os irmãos são contidos em suas emoções. A tristeza impera, mas não há desespero, pelo menos nos velórios que tive a oportunidade de ir, e se existe, ele será vivido no interior do quarto, da casa, não em público.
 As pessoas que não são da família como:  amigos, colegas de trabalho que vão para dar apoio a família, esses tem comportamentos os mais variados, mas, dentre esses comportamentos, eu confesso que venho me assustando com um...
Há um grupo de irmãos que me parecem ir aos velórios para rever os irmãos que há muito tempo não veem, até aí tudo bem, é bom rever as pessoas,  no entanto ao se encontrarem, conversam normalmente, falam das suas lembranças, perguntam sobre outras pessoas que lhe são próximas, e fazem isso muitas vezes ao redor do caixão, não conseguindo, na minha opinião, respeitar o momento da dor do outro, que não é a do encontro, mas da despedida. Veja bem, não sou contra nenhum encontro, nenhuma conversa com os irmãos em velório, mas não nos parece insensibilidade demais, pessoas contando coisas engraçadas, as vezes em um tom normal de conversa, evocando lembranças do que viveram sorrindo, bem ali, próximo do caixão, próximo da família que sofre uma dor que nenhuma palavra a descreve? O que será chorar com os que choram? Bem, isso é uma ordem bíblica, e sei que é complicada de obedecer quando estamos felizes num momento de reencontro.
Do ponto de vista psicológico a dor do luto é um dos maiores desafios que o ser humano vai sofrer, ela nos traz a concretude da realidade que nós não controlamos nada, nos fragilizando por isso. A morte nos faz ver o quanto a vida é breve, e pode até nos levar a pensar, ‘para que construir coisas aqui se vamos morrer mesmo’. A morte, como já disse, muda nosso lugar mundo. Não somos mais quem somos, e por muito tempo ficamos com a sensação que não mais encontraremos o caminho para viver a vida com graça e cor novamente. Por isso, diante de uma pessoa que está vivendo o luto, só nos cabe o silêncio e as lágrimas. Um abraço afetuoso, que comunica, eu não tenho nada para dizer, mas estou aqui.
Um abraço, ah... um abraço meus irmãos. Um abraço carinhoso fala mais do que qualquer palavra. Não tente consolar, quem faz isso é o Consolador, o Espírito Santo.
 Não chegue com versículos prontos, empa... isso é conversa para um outro texto, o de amanhã. Espero você.







terça-feira, fevereiro 02, 2016

Parte III


O luto é uma experiência que faz parte da vida humana. E não tem como viver o luto e não ficar desestabilizado do ponto de vista emocional, físico e social. O luto muda nosso lugar no mundo. O que a gente foi, do ponto de visto do concreto, já não somos mais. A mãe, a esposa, o pai, o filho, o irmão, o amigo, todos perdem o papel que desempenhava. Agora o vazio. E como preencher esse novo momento, é o desafio, para quem já está arrebentado em sua dor.

Até aqui falamos das 5 fases estudadas por Elizabeth kluber-Ross que é possível ser vista em qualquer pessoa que passa pelo luto, mas outros estudiosos também dividiram esse momento. Por exemplo, John Bowlby (1990) fez a seguinte observação dessas fases:

Fase de Entorpecimento: consiste num período em que a pessoa se poderá sentir como se estivesse desligada da realidade, atordoada, desamparada, imobilizada ou perdida. Nesta fase assiste-se a uma negação da perda que poderá surgir como uma forma de defesa contra um evento de tão difícil aceitação;
Fase de Anseio e Protesto: caracterizada por um período de emoções fortes, sofrimento psicológico e agitação física. Frequentemente assiste-se à manifestação de sentimentos de raiva dirigidos tanto a si próprio como a pessoas significativas;

Fase de Desespero: constitui uma fase igualmente complexa que surge frequentemente associada a momentos de apatia e depressão, sendo que o processo de supressão destas reações é muito lento. Por vezes verifica-se um afastamento das pessoas e atividades, falta de interesse, assim como dificuldades de concentração na execução de tarefas rotineiras. Os sintomas somáticos, tais como, insónias, perda de peso e de apetite, são recorrentes;

Fase da Recuperação e Restituição: nesta fase deverá emergir uma nova identidade que permite ao indivíduo abandonar a ideia de recuperar aquilo que perdeu e adaptar-se ao significado que essa perda tem na sua vida. Verifica-se, então, o retorno da independência e da iniciativa. Apesar de a instabilidade ainda se encontrar presente nos relacionamentos sociais, nesta fase poderá haver investimentos em novas amizades e o reatar de laços antigos.

Bom, estou insistindo em que você conheça as fases do luto, para que perceba que existem um processo normal que será vivenciado por todo ser humano frente a morte ou a alguma perda significativa, para que uma vez conhecido, possa identificar qual a fase o enlutado está passando, e a partir dessa percepção, saber melhor o que fazer para ajudar.

O luto é uma dor tão grande que ele pode paralisar qualquer pessoa. Não o subestime. De um processo normal para um que adoecerá o enlutado na vida e para a vida, a linha tênue.
É preciso reconhecer o tamanho dessa dor. Os seres humanos não foram criados para morrer, somos seres criados para a vida. Mas, como todo cristão sabe, os homens romperam com Deus no jardim do Éden, e passamos a experimentar algo que não estava no plano de Deus para nós. 

Por isso, a morte é devastadora em minha opinião.
Sei que a dor pode tomar sentido vista na perspectiva da Palavra. Deus permite a Morte, mas o seu projeto de Vida triunfará, e Ele nos levará para um lugar onde ‘enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.’ Apocalipse 21:4
Que promessa! Louvado seja Jesus Cristo!
Mas até lá, vamos fazer tudo para que essa dor seja mais amena para nós, e, para todos que estão perto.

Amanhã seguimos em nossa reflexão.

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

(Parte II)


Tudo aquilo que vem para a nossa vida e que nos desestabiliza pode gerar em nós a dor do luto. E infelizmente não é só diante da morte de uma pessoa querida que o experimentamos. Ele também pode nos visitar quando passamos por um fim de namoro, um divórcio, a perda de animais de estimação, mudança para uma outra cidade ou país, desemprego, doenças graves, estupro e tantas outras coisas.
Bom, conforme informado aos meus leitores, estarei, como já disse, buscando dar um olhar prático sobre esse assunto tão difícil. Minhas ideias sobre como vencer o luto é fruto da minha experiência ao perder o meu marido, das muitas leituras na psicologia e das conversas com meus pacientes e amigos. Certamente que ao lidar com algo dessa complexidade sei que não vou esgotar o assunto, talvez falte muita coisa, e quero deixar livre para que meus leitores façam suas críticas e sugestões.
É importante considerar que a morte é misteriosa demais... o que desejo é levar meus leitores a pensar que sempre podemos fazer alguma coisa que poderá tornar mais fácil a difícil caminhada de quem está passando pelo luto.
Hoje deixo o texto sobre as cinco fases do luto que encontrei em um site, que achei bem didática. Na minha opinião, pensar sobre a vida é algo que não podemos ignorar se queremos encontrar sossego para nossa alma. Embora a distância entre o que pensamos, sentimos e o que fazemos muitas vezes é imensa, eu creio que, quando começamos refletir sobre um assunto, então talvez temos aí uma possibilidade de encontrar caminhos para lidar com nossas dores, não digo certeza, porque o humano é rico em suas possibilidades, até mesmo em refletir contra ele mesmo, fazendo com que o pensar seja um instrumento para potencializar a dor e não amenizá-la.
A psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, ao trabalhar com pacientes terminais, percebeu que todos eles viviam uma reação psíquica que lhes era comum, durante o processo da doença até a culminação da morte. Ela observou que seus pacientes passavam por reações psicológicas bem claras, as quais ela denominou de as cinco fases do luto. Essas fases não seguem uma ordem fixa, sendo possível que a pessoa as vivencie em sequências diferentes, ou repetindo ou se fixando em uma delas, tudo depende da história e das possibilidades que abriga a vida de cada um.
Tem pessoas que podem levar meses ou anos vivenciando apenas quatro das cinco fases do lutos, num vai e vem interminável sem nunca chegar a quinta fase que é a fase da aceitação. Essas pessoas sofrerão muito e sustentarão um ambiente de muita tristeza para os que estão perto, dificultando assim também, o processo de luto de familiares e amigos. Outras pessoas paralisam em alguma fase sem ter avanços por muito tempo. Tem pessoas que conseguem prosseguir com a vida, e vencem mais rápido essas fases. E infelizmente é possível que pessoas nunca o vençam.
Por essa razão, apresento a vocês as cinco fases do luto, dessa brilhante psiquiatra, na esperança de que ao compreender o processo você possa encontrar caminhos, dentro das suas possibilidades de vencer a dor, e não ser vencido por ela. Busque identificar os seus pensamentos e ver em qual fase você está, o quanto vai e vem nas fases e se está estacionado em alguma. Caso identifique em que fase você está, ótimo! Quando sabemos onde estamos fica mais fácil decidir para onde ir, e até mesmo se queremos ir.
Segue as cinco fases do luto de Elisabeth kubler- Ross:


Primeira fase: negação
Nessa fase a pessoa nega a existência do problema ou situação. Pode não acreditar na informação que está recebendo, tentar esquecê-la, não pensar nela ou ainda buscar provas ou argumentos de que ela não é a realidade.

Pensamentos
• “Isso não é verdade!”
• “Vai passar.”
• “Sempre dou um jeito em tudo, vou resolver isso também.”

Comportamentos
• Buscar uma segunda opinião ou outras explicações para a questão.
• Continuar se comportando como antes (ignorando a situação).
• Não aderir ao tratamento (no caso de doença) ou não falar sobre o assunto (no caso de morte, desemprego ou traição).

Segunda fase: raiva
Nessa fase a pessoa expressa raiva por aquilo que ocorre. É comum o aparecimento de emoções como revolta, inveja e ressentimento. Geralmente essas emoções são projetadas no ambiente externo; percebendo o mundo, os outros, Deus, etc. como causadores de seu sofrimento. A pessoa sente-se inconformada e vê a situação como uma injustiça.

Pensamentos
• “Por que eu?”
• “Isso não é justo!”
• “Por que fizeram isso comigo?”

Comportamentos
• Perde a calma quando fala sobre o assunto.
• Recusa-se a ouvir conselhos.
• Evita falar sobre o assunto.

Terceira Fase: negociação
Nessa fase busca-se fazer algum tipo de acordo de maneira que as coisas possam voltar a ser como antes. Essa negociação geralmente acontece dentro do próprio indivíduo ou às vezes voltada para a religiosidade. Promessas, pactos e outros similares são muito comuns e muitas vezes ocorrem em segredo.
Pensamentos
• “Vou acordar cedo todos os dias, tratar bem as pessoas, parar de beber, procurar um emprego e tudo ficará bem.”
• “Vou pensar mais positivamente e tudo se resolverá.”
• “Deus, deixe-me ficar bem de saúde, só até meu filho crescer.” (pessoa ao saber que está doente)

Comportamentos
• Rezar e fazer um acordo com Deus.
• Buscar agradar (no caso de uma traição).
• Se alimentar com produtos light e diets para compensar os outros alimentos.

Quarta fase: depressão
Nessa fase ocorre um sofrimento profundo. Tristeza, desolamento, culpa, desesperança e medo são emoções bastante comuns. É um momento e que acontece uma grande introspecção e necessidade de isolamento.

Pensamentos
• “Não tenho capacidade para lidar com isso.”
• “Nunca mais as coisas ficarão bem.”
• “Eu me odeio.”

Comportamentos
• Chorar.
• Afastar-se das pessoas.
• Comportar-se de maneira autodestrutiva.

Quinta fase: aceitação
Nessa fase percebe-se e vivencia-se uma aceitação do rumo das coisas. As emoções não estão mais tão à flor da pele e a pessoa se prontifica a enfrentar a situação com consciência das suas possibilidades e limitações.


Pensamentos
• “Não é o fim do mundo.”
• “Posso superar isto.”
• “Posso aprender com isto e melhorar.”

Comportamentos
• Buscar ajuda para resolver a situação.
• Conversar com outros sobre o assunto.
• Planejar estratégias para lidar com a questão.


Elisabeth Kübler-Ross

De modo lúdico esse vídeo mostra as cinco fases do luto; assistam, aprendam e divirtam-se com a girafa!


sábado, janeiro 30, 2016

Luto! Luta... dor que pode ser vencida? (Parte I)


Se há algo que dói de forma capaz de nos transformar para sempre, é a dor do luto. Quem já perdeu uma pessoa querida, sabe que o ‘nunca vou te ver novamente’ é capaz de nos transportar para o vazio e nos desestruturar por completo. Muitas vezes pensamos que jamais vamos ver o sol nascer; o sorriso, antes tão fácil, agora se perde em meio à angústia que aperta o coração de tal forma que pensamos ‘nunca mais’ saberemos o que é um coração leve.  O tempo, que antes era um aliado, agora parece não passar, mantendo em nós a sensação de que o desespero é o fim do caminho. As pessoas ao redor, mesmo aquelas que amamos, não perdem a sua beleza, mas não temos mais energia para desfrutar delas. O Luto é mesmo uma dor solitária, porque muitas pessoas, já fragilizadas por suas próprias dores, não suportam a realidade de mais um sofrimento contra o qual parece que nada se pode fazer.
E viver o luto, como todas as demais coisas na vida, exige de nós uma escolha, mas, diante dele, quem força tem? Ele é capaz de nos sugar a profundidade em que por nós mesmos não ousamos mergulhar, desencadeando outras dores, como por exemplo a dolorosa experiência dos sintomas depressão.

Trabalhando como psicóloga, tive que enfrentar esse tema. Eu, até aqui, perdi poucas pessoas. A maior e mais significativa perda foi do pai do meu filho, o Eliack, meu primeiro marido, a quem amei muito, e sei que também fui amada. Nós vivemos entre namoro, noivado e casamento, cinco anos e trinta dias. Então o Senhor da vida permitiu sua partida. Sua morte me levou ao fogo onde todos os meus princípios e valores foram passados. E enquanto escrevo esse texto, a impressão que tenho é que ela forjou em mim uma pessoa que eu não conhecia.
Mas o que tenho aprendido é que o luto é uma dor que pode ser vencida. E trabalhando com o Humano, descubro que a vida interna de uma pessoa, aquilo que carregamos dentro de nós, somado ao que foi implantado pelo Criador em nossas vidas, pode nos levar a transformar esse inimigo invencível, o luto, em um instrumento capaz de nos fazer, nas mãos do Autor da Vida, pessoas que tornarão esse mundo bem mais suportável, porque diante da morte aprendemos o valor da vida. E aprender esse valor é receber o melhor que a vida pode nos oferecer, porque a vida é o nosso bem mais precioso.
Por isso, não se entregue. A dor do luto não é maior do que você, e, ainda que ela aperte de forma arrochada o seu coração, ela já nos aponta uma realidade maravilhosa sobre as muitas possibilidades de vencer o luto, ‘é o grande que abriga o pequeno’. Não é a morte que abriga a vida, é a vida que abriga a morte, e um dia a Vida vencerá.
Por essa razão, lhe convido a caminhar comigo nesses próximos dias, em que falarei dessa dor que nos desafia.


sexta-feira, janeiro 29, 2016

Falsa impressão

Muitas e muitas vezes não compreendi nada, nada, nada. Muitas vezes gritei e pensei que gritava ao vento, 'Deus onde está'? Como leitora diária da Palavra, eu sei que Deus está em todos os lugares, mas, falo da minha percepção e não da realidade de Deus. 
Confesso, hoje é claro, a terrível impressão de que muitas vezes eu pensei que Ele estava dando um gostoso passeio nas galáxias, enquanto eu, aqui,  me debatia com a vida incoerente que se apresentava ao meu olhar.
Não sei você, mas eu dou trabalho para o Espírito Santo. Depois que estudei psicologia, fiquei pasma frente a complexidade da minha alma. Eu não sabia o quanto sou complicadinha. 
Descobri algo muito chato, sofro de retardo para compreender a realidade do reino para o qual fui buscada.
E nesses meus 26 anos de caminhada com o Criador das estrelas, o maior desafio que tenho é, o de compreender, dentro de mim, qual é a sua vontade para minha vida. 
Porém, o Grandão é paciente, mesmo conhecendo a pequenez da gente. 

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Essas coisas...


Essas coisas...
Tenho encontrado poucas pessoas contentes com suas vidas. Elas não gostam do seu corpo, do seu rosto, do seu cabelo, do seu cheiro. Se as elogiamos, elas logo nos mostram um defeito, aff!
Coisa chata!
Se perguntamos:  Como vai a vida? Ela responde um ‘tudo bem’ sem recheio. É que suas vidas se esvaziaram por inteiro.
Que coisa pobre!
Se lhe falamos de amor, ela nos fala do perigo da dor.
Que coisa sem graça!
Se ao tocar em seu braço com carinho, ela acredita que o queremos é bem mais que estar apenas lado a lado, juntinho.
Que coisa solitária!
Se lhe mostramos um caminho, ela grita: ‘Ai, que nada, é fim de túnel’.
Que coisa fúnebre!
Se lhe contamos um milagre, ela murmura sua ausência de esperança diante do céu azul.
Que coisa triste!
Eu acredito que essas pessoas não aprenderam que a música da vida já tocada não nos atrapalha de compor um novo enredo.
E você?

Que coisa... 

quarta-feira, janeiro 27, 2016

A mochila nas costas




Meu irmão Sandro, a quem amo demais da conta, sempre dizia que eu andava com uma mochila nas costas. Quando é o Sandro falando algo, temos sempre que buscar qual é o significado que está dando às suas palavras, porque ele tem um dicionário exclusivamente criado por ele. “Mochilas nas costas” significa que eu era uma sonhadora, dona de muitos projetos e ideais que eu procurava realizar. Como líder de jovens e discipuladora, eu estava sempre procurando algo novo para fazer, e naquele tempo eu esbanjava energia, tempo e criatividade. Era “ligadona”.
Mas o tempo, esse que recebeu o poder de ser soberano, passou. E a vida trouxe suas dores, e eu coloquei a mochila dos sonhos no quarto de despensa da minha alma, como a gente coloca tranqueira em quarto de despensa em nossa casa. E lá deixei a mochila por tanto tempo que até quase me desacostumei de sonhar. Contudo, fui ficando cansada... senti que não conseguia mais andar... pensava “Senhor, o que acontece comigo?”. E certa manhã, lendo que Deus nos convida a encontrar descanso Nele, percebi que talvez eu devesse estar com um problema muito sério. Deixa eu explicar: sempre que não consigo viver como a Palavra diz, creio que o problema está comigo ou em outro lugar, mas nunca em Deus. Aprendi que Seu caráter é bom, a despeito do que eu vivo.  Então comecei a orar... ah! esse negócio de orar funciona, mas dói. 
Fui percebendo que muitas das verdades que eu acreditava, não eram verdade na minha vida. Fiquei abalada comigo. Que distância é essa entre o que cremos e o que vivemos? Acho que a lua é mais perto.
Então me rendi, aceitei, é isso que sou, alguém muito longe de viver o que acredita. Mudei minha oração, passei a prestar atenção em Deus, e dizer “estou aqui, não posso descansar, mas eu sei que tudo podes, eu não posso nem ao mesmo sentir o que creio, mas eu sei que o Senhor criou o mundo inteiro e isso é nada para o Senhor fazer”. Sentia-me humilhada no início, com vergonha, como é difícil reconhecer quem somos, é uma dor que não pode ser compartilhada.
E por muito tempo ouvi o silêncio de Deus.
E o tempo seguiu... sem perceber, de um jeito que só o Criador sabe fazer, comecei a sentir Seus braços ternos me envolverem. Ele me trouxe amigos, trouxe-me terapia, trouxe-me textos bíblicos, palestras, Ele me trouxe trabalho, Ele me trouxe os sonhos de novo. E bem devagarzinho a energia para viver voltou, e eu entrei naquele quarto para jogar as tranqueiras fora, e descobri lá minha famosa mochila de sonhos que tanto meu irmão falava. E como uma criança diante de um brinquedo novo, abri correndo os seus bolsos e vi os sonhos escritos, e me sentei no chão desse quarto, com o rosto molhado em lágrimas e me recordei do tempo em que sonhar era um rotina diária. E fiquei ali me perguntando se havia tempo para viver alguns desses sonhos, ou se aquelas palavras antes escritas tinham se perdido no tempo. De repente, me assustei, o que eu estou fazendo aqui, perdendo tempo? 
E tirei os sonhos para fora, os que são possíveis agora, e pus minha mochila nas costas...
E saí... confesso, agora, bem mais feliz.
Dessa mochila, hoje, retirei o meu livro, que está aqui comigo, para ser corrigido e impresso. E em breve vocês pegarão na mão um dos meus sonhos esquecidos.


terça-feira, janeiro 26, 2016

...40 anos... ( Parte II )



Nessa fase, uma sede de vida brotou. Da vida que achei que não vivi, e mansamente me surpreendi que não estou mais contente com a vida que corre lá fora.
Vi-me sem escolha, ou eu me modifico ou vou ficar amarga, como aquelas pessoas que ninguém suporta.
Então me lancei no desafio de fazer minha vida valer a pena.
Mas eu me assombrei com o que vislumbrei...
Vi o abismo que a minha alma se propusera, senti medo de brincar de jogar tudo para cima. Certa vez, minha amiga Eliane Bomtempo me alertou: quem joga tudo para cima, depois tem que sair catando pelos cantos da sala, da varanda, da cozinha, do quintal, do trabalho, do casamento, da amizade e muito mais. Fiquei apavorada – isso pode dar muito trabalho – porque, além de ter que sair catando tudo que jogamos ao vento, ainda temos o risco de quebrar o que não queremos, e depois perder para sempre... confesso que achei tudo isso muito melindroso...
Depois que assim pensei, tive que caminhar ao vento, tomar ar, para assim olhar cuidadosamente os marcos da minha vida que foram estabelecidos, e percebi que estava hesitando removê-los,  mas me assustei com a tremenda responsabilidade de desconstruir tudo que também foi um dia importante.
...40 anos...
Uma coisa aprendi bem pausadamente, que na Vida uma lei da física impera: nada se perde, tudo se transforma.
Ah...  A Vida... não vem destruindo nada!
Meus olhos se arregalaram frente à realidade que se mostrava, de que eu posso querer o novo vinho, colocando-o nos seus odres novos, e mantendo o velho nos seus odres velhos.
Querer o novo não é sinônimo de aniquilar o velho.
Puxa, que alívio!
Então, sentada onde o vento pode tocar minha face, percebi a Presença de alguém que sempre esteve, e que embora nem sempre o veja, Ele sempre me fora colo, porto, pastor e amigo.

E minha aflita alma frente aos 40 anos... descansou. 
Pude ver que como todas as fases, essa é só mais um momento para agradecer a vida que tive, as pessoas que conheci, os pais que me criaram, os relacionamentos que foi possível manter e os que se foram, meu filho que seguirá para sempre comigo, meus amigos forjados no comum da jornada, minha profissão tão amada, meus livros, meu corpo sadio apesar das marcas.

E agradecida me levantei desse momento, apenas e tão somente, para viver meus 40 anos.
E assim eu sigo meus 40 anos...

segunda-feira, janeiro 25, 2016

...40 anos...

Eu aos 7 anos de idade
...40 anos... (Parte I)
Próximo dos quarenta anos, eu percebi que acontecera um fenômeno comigo: comecei a olhar para trás.
Olhei meu filho com 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, hoje, 20 anos... meu Deus, como ele cresceu! O tempo, esse que nada respeita, ou que nada considera, soberanamente passou.
O espelho, antes tão querido, passou a me mostrar meu rosto com uma expressão mais marcada; meu olhar, antes tão leve, ficou pesado pelas pálpebras.
Notei que minha alma estava cansada do que não havia vivido, e que os projetos velhos precisavam de um novo alento.
Assustei-me, quando olhei pra mim, numa corda bamba emocional...
E me vi à beira do abismo de romper com tudo que eu considerava importante. E meu coração se agitou frente à ordem bíblica de que não devemos ‘remover os marcos antigos’.
Eu penso, não tenho nenhuma certeza, que isso que me ocorreu porque, além de ser algo da fase do desenvolvimento humano normal dessa faixa etária, foi fruto de uma pergunta filosófica: O que é a vida? Que, para mim, começou a soar assim – O que é a vida e qual meu propósito nela? Essa pergunta começou a despertar em mim uma sensação – mesmo que longe – entranhada – de que a vida é breve, que não sei quanto tempo tenho, por essa razão não posso desperdiçar nenhum segundo do tempo que se faz hoje.

O meu-eu de agora nem quer ganhar o mundo-planeta, deseja mesmo conquistar o mundo-meu-eu que precisa ser conhecido, desvendado, moldado. É que descobri na alma que o nosso mundo muda, ainda que o mundo não mude, se a gente decidir não ser mais vítima da nossa história.

Eu aos 42 anos






Amanhã segue a parte dois do texto. Espero por vocês.






sábado, janeiro 23, 2016

O corpo que eu não vi

O corpo que eu não vi

O corpo que eu não vi foi o da pessoa mais amada, daquele que me trazia flores ainda que tivesse que dar uma pausa para comprá-la.
O corpo que eu não vi foi o que mais abracei com o amor eros, que me ensinou o confortante valor do abraço, foi meu suspiro, meu olhar completo.
O corpo que eu não vi se foi... não teve tempo de se despedir e partiu deixando como última lembrança o “eu te amo” sem nenhuma cobrança.
O corpo que eu não vi partiu cedo, ainda jovem, talvez pra concordar com Renato Russo, que os bons é na juventude que morrem.
O corpo que eu não vi me deixou o meu maior tesouro, meu filho, a quem a vida me trouxe, no tempo em que também fui feliz.
O corpo que eu não vi me trouxe a dor mais pungente, e o silêncio ante o mistério da vida e da morte... e fez surgir em mim uma ferida que só o tempo embalou, e que com o trabalho do Fiel Criador, curou.
O corpo que eu não vi me fez conhecer o mergulho no mar do vazio do nunca, que tem saudade que esmaga o peito, que tem amigos que se afastam, que tem preconceito antes nunca vivido, que tem homens que se aproximam com todas as intenções, que tem grupo que não nos aceita, que tem mulheres que agarram seus maridos com medo da nossa presença... ai, que mar difícil de mergulhar!
O corpo que eu não vi se desfez, mas aguarda aquele dia em que a morte será vencida.

E por isso, apesar de voltar à praia da vida, marcada por esse sofrer, sigo feliz.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

SEU NOME


Seu nome é o que Você tem.
Ele é o que o faz reconhecível pra Você mesmo na multidão, quando alguém, em busca de Você, o grita.
Ele é o que é e foi; seus pais, avós, tios, irmãos, padrinhos, amigos íntimos que escolheram. Ele é uma senha que Você levará por toda vida (isso pra quem não mudá-lo), é uma senha pública, que dá aos outros acesso ao mundo que Você é. E, certamente, muitos outros iguais ao seu Você encontrará.
Talvez ele não seja tudo o que Você gostaria, e até sinta vergonha dele, preferindo seu apelido de infância. Talvez ele seja mesmo feio, talvez tenha que ser mesmo mudado, porque na roda dos amigos, na escola, na igreja, onde quer que vá, ao pronunciá-lo, ele causa impacto por causa da cultura que convencionou achá-lo estranho, vergonhoso, feio, escabroso.

E se quer mudar seu nome, até a lei diz que Você precisa de uma boa razão; se a tem, faça, mas se apenas o repudia por vaidade de querer aquilo que não é seu, lembre-se que nome não é peça de vestuário para ficar sendo trocado.  
O seu nome, embora seu, traz histórias de seres que viveram, amaram e sofreram, e que como você receberam também um nome que não escolheram, e esses seguiram suas histórias, cumprindo a mais bela obra, de produzir pro mundo uma vida diferente de todas as outras que já ocuparam essa terra. E, se de mim discorda, tudo bem, não brigaremos por isso, Você deve ter as suas razões, mas, se não fosse a vida, qual bem mesmo, Você teria?
Aguente-me só mais um pouco, e pense nisso também, que esse nome que Você tem não é maior ou menor do que aquilo que Você pode fazer com ele.
Quem dá cor, tamanho, forma ao seu nome, não é o outro que o escolheu, é Você que o recebeu. 
Por essa razão, a responsabilidade é sua de torná-lo grande ou pequeno, digno ou indigno, amado ou odiado.
Eu termino essa prosa deixando bem claro que eu só falei, epa!, escrevi, o que eu pensava.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

As conchas que as ondas levaram





Eu estava na praia observando o mar com suas ondas quebrando...se jogando...molhando a areia. Meus olhos passaram por todo o cenário inebriando minha alma com uma doce paz. Quando, de repente, as conchas próximas de mim despertaram meu interesse, levantei então daquele momento escasso – porém sublime – na minha vida, em que consegui olhar com tempo para o belo que estava ao redor de mim.
As conchas que me roubaram desse mágico momento me levaram para outro encantado mundo, o da infância, e me ajoelhei com olhar curioso frente às conchas pequenininhas com furinhos, que me permitiram ver um colar já pronto. Saí então atrás de conchas grandes que tivessem também o mesmo formato, e distraída a onda veio, levando minhas conchas já encontradas, molhando minha toalha, minha bolsa, minha sandália. Então ‘acordei’ e vi que o meu tempo gasto fora perdido, porque as ondas as levaram para um outro mundo, desconhecido.
E depois de gargalhar da minha própria distração, sentei-me confortavelmente em minha toalha molhada, a vigiar, novamente, a onda quebrando...se jogando...molhando.
E me ocorreu algo que pareceu brotar do fundo do meu raso coração – seria isso o que fazemos o tempo todo? Andamos atrás das coisas grandes, distraindo-nos das pequenas, tão belas, que já estão perto?
Ah, como é terrível essa mania que temos de achar que nas coisas grandes é que vamos esbarrar na felicidade!



quarta-feira, janeiro 20, 2016

Voe!




Seja um passarinho e voe!
Vá onde quer ir!
Só não fira outros nessa sua viagem que nasceu dentro de você... não deixe pra trás seus companheiros de ninho, não deixe jamais os ternos amigos.
Mas voe!
E nesse céu, que é a sua estrada, voe!
Só tenha cuidado com as suas escalas. Tem viagem em que é preciso ir bem de mansinho pra não assustar a alma da gente e nem a dos parceiros do caminho.
Tem lugares onde, pra chegar, é preciso usar toda a força das asas. Teste seus limites, cansar é possível, mas desistir não aceite. Pois quem não voa para onde quer ir,vive como se estivesse morto por dentro.
Por isso, voe no sonho que traz desde a infância.
Voe... voe... ainda que suas asas tenham sido machucadas. Pare. Recupere-se. Não se deixe vencer pela amargura da parada. O tempo perdido se foi, mas há tempo, aqui e agora.
Voe, não desacredite do inesperado, da surpresa que os céus lhe trarão. Há beleza em toda parte, ainda que a dor não se afaste.
E quando chegar o fim do seu voo, pouse tranquilamente, olhe para trás bem mansamente e chore as lágrimas raras da alegria de quem não deixou de voar na esperança, nesse céu que é a vida.